Ana acordava todos os dias antes mesmo do celular despertar. Preparava o café da manhã, organizava as lancheiras, verificava os uniformes. Enquanto os filhos ainda se espreguiçavam na cama, ela já tinha vivido meia hora de correria silenciosa.
Depois ainda ia pro trabalho, um escritório agitado, em meio ao trânsito da metrópole. Lá, Ana era profissional dedicada, cheia de prazos e metas para cumprir. Mesmo quando o expediente acabava, sua jornada não terminava, ela continuava em casa, ajudando nas lições de casa, conferindo a lista de compras do mercado, cuidando da casa que parecia nunca descansar.
Por fora, parecia que Ana dava conta de tudo. Mas, por dentro, o cansaço acumulado pesava. A cobrança invisível da sociedade ecoava em sua mente: “Boa mãe não falha. Boa esposa não erra. Boa mulher está sempre disponível”. E nos dias em que a energia não dava conta, a culpa vinha como sombra: “Será que estou sendo boa o suficiente?”.
Essa é a história de Ana, de Laura, de Katia, de tantas outras mulheres que vivem em grandes cidades, equilibrando responsabilidades múltiplas sem que ninguém perceba o quanto isso exige delas. A expectativa de que tudo funcione de forma impecável ainda é silenciosamente imposta. Quando a casa está organizada, os filhos educados e a vida familiar parece no eixo, a mulher é vista como completa. Mas basta um imprevisto ou um momento de cansaço para que os julgamentos apareçam, como se perfeição fosse o padrão esperado.
Essa pressão constante gera frustração, desgaste e sensação de insuficiência, mesmo nas mulheres mais dedicadas. Não é uma escolha pessoal, mas um reflexo de padrões culturais que atravessam gerações, criando a ilusão de que a mulher precisa ser sempre a guardiã da família, a base de tudo, sem espaço para falhas ou pausas.
O valor de uma mulher, no entanto, não pode ser reduzido à imagem da mãe perfeita ou da dona de casa impecável. Cada uma merece espaço para respirar, para se dedicar a si mesma, para simplesmente ser ela mesma sem carregar o peso da responsabilidade do mundo em seus ombros.
Reconhecimento, empatia e apoio verdadeiro são fundamentais para que essa responsabilidade não se torne uma prisão invisível.
Luiz Leal
Escritor e Palestrante
Programador de Mentes