LUIZ LEAL

07 Nov 2025 | 8:06

Diário: O soco psicológico que todo homem deveria dar em si mesmo

Rogério chegava em casa tarde, depois de mais um dia sufocado no trânsito e no trabalho. Jogava a mochila num canto, ligava a TV e deixava o barulho preencher o silêncio. Era sempre a mesma rotina: cerveja, notícias sensacionalistas de tragédias, rolagem infinita de feed no celular.
Até que numa noite, a energia acabou. A casa mergulhou no escuro. Sem distrações, sem telas, sem vozes de fora. Só ele e os próprios pensamentos, e eles gritavam. Raiva do chefe, frustração com a vida, mágoas antigas, planos engavetados. Tudo misturado, confuso, sem ordem.
Foi nesse silêncio que ele pegou um caderno da gaveta, uma caneta e começou a escrever. Sem pensar, sem filtrar, só deixou a mão correr. Uma página, depois outra. Palavras sujas, brutas, pesadas. Como se abrisse uma torneira na mente, e uma água turva começasse a escorrer.
Quando parou, algo estranho aconteceu, a pressão interna tinha diminuído. O que antes era só confusão virou algo palpável, visível. Estava ali, no papel, fora dele. Pela primeira vez em anos, Rogério dormiu em paz.
É isso que quase nenhum homem percebe, o simples ato de escrever é um soco psicológico em si mesmo. Um golpe que quebra a máscara do “tá tudo bem” e obriga a encarar o que realmente existe lá dentro.
Desde crianças, os meninos foram ensinados a engolir o choro, trancar a raiva, guardar tudo no fundo da garganta. “Homem não chora”, repetido tantas vezes, até que virou verdade cultural. O resultado? Uma geração de caras duros por fora e destruídos por dentro. Ansiosos, frustrados, até deprimidos, carregando fardos invisíveis.
O diário é a válvula de escape. É a forma mais brutalmente honesta de se encarar. Escrever é despejar no papel o que você não tem coragem de contar a ninguém, medos, desejos, culpas, raivas. Não é frescura. É ferramenta de guerra. Um caderno pode ser mais leal que qualquer amigo, porque ele não julga, não interrompe, não faz piadinha, não dá conselho idiota. Ele só escuta.
E não vale escrever no celular. A tela distrai, corta o fluxo. Escrever à mão é uma experiência diferente, o ritmo lento força a mente a processar. Cada letra rabiscada é um tijolo que você tira da parede mental e coloca onde pode ver. É ritual, é clareza, é força. Um diário pode salvar a mente de si mesma. Pode transformar confusão em estratégia, peso em clareza, dor em força.
Se você ainda acha que diário é “coisa de menina”, desapega dessa mentira cultural. Porque, no fim, a verdade é dura:
Quem não consegue encarar a si mesmo, não tem a menor chance de encarar o mundo de frente.

Essa é a real: um diário pode ser o maior aliado de um homem que quer deixar de ser só um robô programado pra engolir dor e virar alguém consciente de si, dos seus sentimentos e da sua força.

Luiz Leal
Escritor e Palestrante
Programador de Mentes