LUIZ LEAL

31 Out 2025 | 18:04

Patrulha de virtude e moralismo de sofá

Mariana resolveu investir parte do bônus que ganhou no trabalho em algo que sempre sonhou, montar um ateliê em casa. Pinturas, telas, tintas novas. Um espaço só dela, onde pudesse respirar depois de anos vivendo só pra empresa e pros boletos.
Ela postou uma foto do canto recém-montado. Parecia feliz, orgulhosa da conquista.
Demorou menos de uma hora pros comentários chegarem: “Com esse dinheiro dava pra alimentar crianças carentes.” “Por que não doou em vez de gastar com isso?” “Quanta futilidade num mundo cheio de miséria.”
Não era um ataque à arte dela. Era um ataque à liberdade dela.
Sempre que alguém aparece usando o próprio dinheiro pra criar algo bonito, realizar um projeto pessoal ou simplesmente celebrar uma conquista, surge a patrulha da virtude. É um exército de moralistas de sofá, com a lição de casa dos outros debaixo do braço.
O discurso é sempre o mesmo: tentar transformar qualquer conquista em dívida moral com o mundo. É como se o simples ato de viver com dignidade já fosse uma ofensa pública.
Eu mesmo (Luiz) cresci na periferia. Fui criança carente. Sei exatamente o que é passar necessidade, ver o dinheiro faltar e o medo bater. E sei também o que é se mover, se virar, dar um jeito sem ficar esperando que alguém viesse resolver minha vida.
Hoje, depois de muito suor e lágrimas, conquistei meus bens e minha independência. Não foi sorte, não foi herança, não foi esmola. Foi trabalho duro, persistência e estratégia.
E sim, eu ajudo. Faço doações regulares para instituições sérias. Participo como voluntário sempre que posso. Só que faço isso em silêncio, porque caridade com câmera ligada não é caridade, é marketing. É holofote. É vaidade travestida de bondade.
Mas, aparentemente, isso nunca é suficiente pra patrulha.
Se fôssemos seguir essa lógica, ninguém poderia comprar um carro, viajar, reformar a casa ou investir em um hobby. Sempre haverá alguém passando necessidade. Então o que sobra? Viver com o mínimo, se desculpando por prosperar? pedindo autorização pra ser feliz?
Essa cobrança é seletiva e incoerente. Fácil exigir que o outro abra mão do esforço que construiu. Difícil mesmo é abrir a própria carteira, arregaçar as próprias mangas. A maior contribuição da maioria desses fiscais online ainda é um like preguiçoso em post de ONG.
A verdade é que nem toda pobreza é fruto exclusivo de injustiça social. Boa parte dela nasce de escolhas ruins, de falta de visão, e em muitos casos da completa ausência de vontade de mudar. Fingir que todos querem de fato sair da miséria é se enganar.
Eu mesmo conheço pessoas que vivem vidas medíocres, e estão tão perpetuados na própria miséria, tão confortáveis em ser sempre ajudados como "vítimas de um mundo injusto" que não querem mudança, mas continuar suas vidas exatamente como e onde estão. E sinceramente, por mim tudo bem, não se pode ajudar a quem não quer ser ajudado.
Isso não significa ignorar quem realmente precisa. mas significa reconhecer que ajudar é uma escolha, não obrigação.
Eu não criei os problemas do mundo como também não sou responsável por consertar. Eu ajudo porque quero, porque acredito em fazer a minha parte. Não porque alguém tenta me enfiar um boleto moral pela goela no feed de comentários.
Caridade é decisão íntima, não chantagem emocional. Quando vira obrigação, não é virtude, é coerção. Se for por auto-promoção, não é generosidade, é falsidade.
Conclusão: viva e deixe viver. Se você acha que meu dinheiro e meu esforço devem ser direcionados pra salvar o mundo, começa mostrando seu próprio extrato de doações e suas horas de voluntariado. Até lá, guarda seu moralismo de sofá.
Eu já estive lá embaixo. Sei o que é a pobreza e sei também que sair dela exige mais do que esperar que alguém te salve. Eu escolhi me mover. E continuo selecionando sim, a quem estendo a mão.

Isso é liberdade. Isso é responsabilidade. Isso é vida real.

Luiz Leal
Escritor e Palestrante
Programador de Mentes