LUIZ LEAL

30 Jan 2026 | 12:12

O Octógono Invisível: A Luta Que o Público Não Percebe

Imagine um grande octógono.

Luzes acesas.
Câmeras ligadas.
Música alta.
Narradores inflamados.

De um lado, entra o Lutador Azul.
Do outro, o Lutador Vermelho.

A plateia se divide instantaneamente.

Uns gritam o nome de um.
Outros vaiam e levantam cartazes defendendo o outro.
Discussões começam nas arquibancadas.
Amizades estremecem.
Famílias se racham.
Grupos se odeiam.

Lá dentro, os dois lutadores se encaram com ódio no olhar.

Mas quase ninguém olha para fora do octógono.

E é exatamente aí que está o ponto.

A Luta é Real. O Roteiro Também.

Não, a briga não é totalmente falsa.
Os golpes machucam.
O sangue é real.
A tensão existe.

Assim como na política.

Existem diferenças reais.
Existem ideias opostas.
Existem decisões que impactam vidas.

Mas existe também algo maior acontecendo ao mesmo tempo.

Porque enquanto a multidão grita…

Alguém está vendendo os ingressos.
Alguém está vendendo a transmissão.
Alguém está vendendo camisetas, bandeiras e narrativas.

E essas pessoas…

não estão no octógono.

A Arquibancada Nunca Luta. Mas Sempre Se Exaure.

Repara numa coisa curiosa.

Quem sai mais cansado depois de uma luta?

O lutador…
ou o torcedor que passou horas gritando, discutindo e brigando nos comentários?

Na política acontece igual.

Pessoas comuns perdem:

  • paz
  • amizades
  • saúde emocional
  • tempo de vida

Defendendo lutadores que nem sabem que elas existem.

Enquanto isso…

Os organizadores do espetáculo seguem fazendo o que sempre fizeram:

Organizando o próximo evento.

Troca o Campeão. O Evento Continua.

No fim da luta, um braço é levantado.

Metade da arquibancada comemora.
A outra metade sente ódio, frustração, revolta.

Mas no alto da arena…

Os organizadores não estão chorando nem comemorando.

Eles estão contando.

Audiência.
Engajamento.
Alcance.
Influência.
Poder de mobilização.

Porque para eles, o que importa não é quem venceu.

É que o espetáculo continue rendendo.

Se o público parar de assistir…
Se parar de brigar…
Se parar de reagir emocionalmente…

O negócio perde força.

E isso não pode acontecer.

Essa Arena é Antiga. Só Mudam os Lutadores.

Aqui entra a parte que quase ninguém percebe:

Isso não começou agora.
E provavelmente não vai terminar tão cedo.

Mudam os nomes.
Mudam os partidos.
Mudam as bandeiras.
Mudam os discursos.

Mas o modelo do evento continua o mesmo há décadas… séculos até.

Sempre existiu um “nós contra eles”.
Sempre existiu um inimigo da vez.
Sempre existiu alguém dizendo:
“Dessa vez é diferente. Agora é decisivo. Agora é tudo ou nada.”

A arena muda de cenário.
Os lutadores mudam de uniforme.
Mas o mecanismo da polarização como espetáculo continua intacto.

Porque ele funciona.

O Verdadeiro Poder Não Está na Arquibancada

Este texto não é um convite para indiferença.
É um convite para consciência mental.

Você pode ter opinião.
Pode votar.
Pode se posicionar.

Mas sem virar combustível emocional do espetáculo.

Sem entregar sua paz, sua sanidade e sua vida para uma guerra psicológica que nunca termina — porque ela foi feita para não terminar.

A grande pergunta deixa de ser:

“Quem vai ganhar a próxima luta?”

E passa a ser:

“Eu vou continuar vivendo como torcedor… ou como protagonista da minha própria vida?”

Sair da Arquibancada é um Movimento Interno

Talvez o maior ato de rebeldia hoje não seja gritar mais alto.

Seja pensar com clareza.

Seja perceber que sua vida real — seus projetos, sua família, sua saúde, seus sonhos — está acontecendo fora da arena.

Enquanto milhões discutem políticos como se fossem membros da própria família…

a própria vida vai ficando para depois.

“Sempre depois das eleições.”
“Sempre depois da crise.”
“Sempre depois do próximo escândalo.”

Mas a vida não é o evento.

A vida é o que acontece fora do espetáculo.

E sair da arquibancada não é físico.

É mental.

É reconfigurar a mente.
É parar de reagir automaticamente.
É deixar de ser puxado pelas narrativas emocionais.
É voltar a dirigir a própria energia para construir a própria realidade.

O Espetáculo Precisa de Plateia. Sua Vida, Não.

A arena vai continuar.
Novas lutas virão.
Novos vilões e heróis serão criados.

O barulho não vai parar.

Mas você pode escolher onde sua mente mora.

Na arquibancada, vivendo de indignação e ansiedade…
ou fora do octógono, construindo uma vida que não depende do placar político para fazer sentido.

Porque no fim…

O espetáculo é coletivo.
Mas o destino é individual.

E enxergar o jogo não te transforma em alguém neutro.

Te transforma em alguém livre.