LUIZ LEAL

12 Dez 2025 | 4:00

A paisagem da vida

Um viajante que seguia pela estrada em um carro moderno, silencioso e rápido. O motor era potente, o trajeto parecia sempre apressado e os compromissos no destino não paravam de chamá-lo. Ele dirigia, dia após dia, focado apenas na linha do horizonte.
Mas havia um detalhe curioso: as janelas do carro estavam sempre fechadas. Do lado de fora, as árvores floresciam, os pássaros cantavam, o vento mudava de direção, o sol nascia e se punha em um espetáculo diferente a cada dia. Ainda assim, o viajante mal percebia. Ele apenas acelerava.
Até que, em certo ponto da viagem, sua intuição lhe sussurrou: — Por que você não baixa o vidro?
O viajante, sem entender bem o porque, abriu a janela. E então, pela primeira vez em muito tempo, sentiu o vento no rosto, ouviu os sons da natureza, respirou o cheiro da terra molhada. Percebeu que a estrada era mais do que um caminho para chegar a algum lugar: ela era, em si, parte da experiência de viver.
Esse breve relato revela o que acontece conosco. Vivemos em carros velozes que chamamos de rotina, cercados por compromissos, metas, prazos e obrigações. Trabalhamos, cuidamos da casa, corremos atrás de boletos e responsabilidades que nunca acabam. A vida se transforma em um itinerário funcional, onde o “chegar” parece ser mais importante do que a viagem.
Mas a vida não tem botão de pause. Ela acontece enquanto estamos ocupados demais para percebê-la. E é por isso que ouvimos tantas pessoas dizerem:
— “Já é fim de ano?”
— “O tempo está voando.”
— “Parece que foi ontem.”
A verdade é que o tempo não está passando mais rápido, o universo continua operando no mesmo compasso de sempre há milênios. O sol ainda leva o mesmo tempo para atravessar o céu, as estações ainda se sucedem na mesma ordem, os dias ainda têm as mesmas 24h. O tempo não acelerou, o que mudou foi a nossa percepção.
E por que isso acontece? Porque corremos demais. Porque não abrimos o vidro do carro. Porque esquecemos de olhar pela janela e ver a paisagem da vida acontecendo.
Quando você para para caminhar em um parque sem olhar o celular, quando dedica alguns minutos a um abraço demorado, quando se permite cozinhar com calma, conversar sem pressa, ou até fazer vários nadas, você está baixando o vidro e deixando a vida entrar.
É nesses momentos que o tempo se alonga, que a mente desacelera e que o coração lembra que não está aqui só para cumprir funções, mas para viver de verdade.

Se a estrada está rápida demais, talvez o convite seja esse: desacelerar. Baixar o vidro. Sentir o vento no rosto. Porque viver não é apenas chegar ao destino, mas estar presente em cada quilômetro da jornada.

Luiz Leal
Escritor e Palestrante
Programador de Mentes