LUIZ LEAL

05 Dez 2025 | 3:24

O homem como provedor na sociedade moderna

João acordava todos os dias antes do sol. O despertador nem tocava e ele já estava de pé. Tomava um café rápido, vestia a mesma jaqueta surrada e pegava o mesmo metrô lotado rumo ao trabalho com aqueles seres que desconhecem a invenção do desodorante. Atravessava a cidade, em meio a rostos sonolentos e bocejos matinais, homens e mulheres carregando mochilas, bolsas, preocupações e boletos. Todos estavam em movimento, mas ninguém estava realmente presente.
No trabalho, João se dedicava ao máximo. Não era apenas sobre cumprir metas: era sobre manter as contas em dia, o aluguel garantido, a geladeira cheia. Sabia que, de certa forma, a tranquilidade do lar dependia disso. À noite, chegava cansado, mas ainda assim ouvia os desabafos de sua esposa, ajudava os filhos nas tarefas escolares, sorria mesmo quando o peito apertava de preocupação.
Por fora, tudo parecia estável. Por dentro, João vivia um constante tsunami. Guardava para si o medo de falhar, a angústia diante de imprevistos, o peso de ser o alicerce. Ele era especialista em dizer “está tudo bem”, mesmo quando não estava.
E assim a vida seguia, repetindo dias que pareciam todos iguais. Até que, numa noite qualquer, enquanto olhava os filhos dormindo, percebeu: ninguém nunca havia lhe perguntado se ele também estava bem. Talvez nem ele mesmo tivesse feito essa pergunta.
Essa é a história de João, de Mauro, de Fernando e de tantos outros. Homens que a sociedade moldou como provedores, guardiões, pilares inabaláveis. Quando tudo vai bem, contas pagas, casa abastecida, conforto garantido, eles são vistos como Homens. Mas basta um atraso, um imprevisto, mesmo que fora de seu controle, a necessidade de apertar o orçamento, para que o olhar sobre eles mude. O valor do homem ainda é, até hoje, medido por sua performance financeira.
E essa cobrança é silenciosa, quase invisível. Não aparece em palavras diretas, mas se instala nas entrelinhas, nos gestos, nas comparações. O homem aprende cedo que deve ser forte, não mostrar fraqueza, não expor fragilidade, o famoso "homem não chora". Aprende que sua dignidade está ligada à sua capacidade de prover, de proteger. E assim segue, segurando o mundo. Com os ombros cansados. Mas em silêncio.
Não se trata de culpar ninguém. São padrões culturais herdados e repassados de geração em geração, muitas vezes sem que percebamos. Mas a verdade é que essa dinâmica sufoca, distancia e machuca. Porque reduz o ser humano a uma função: pagar contas, manter tudo em ordem, carregar a cruz da estabilidade.
É preciso lembrar que por trás do provedor existe alguém que sente, que sonha, que também precisa de reconhecimento, carinho, compreensão, apoio. Relações verdadeiras não podem ser medidas apenas pelo que se coloca à mesa, mas pelo cuidado e pelo amor que se compartilha.
Talvez este texto seja apenas um lembrete. Um convite para olhar de forma mais íntima e humana para aquele que sempre diz “está tudo bem”. Pode ser o marido, o pai, o irmão, ou talvez você mesmo.
E quem sabe, ao abrir esse espaço de empatia e diálogo, possamos transformar o peso da provisão em parceria. E o silêncio dos furacões internos em abraço.

No fundo, o que todos nós precisamos é de reconhecimento, de afeto sincero, de partilha. Precisamos ser vistos não só pelo que fazemos, mas pelo que somos.

Luiz Leal
Escritor e Palestrante
Programador de Mentes