Dizem que havia uma cidade subterrânea, chamada Rotínia.
Nela, todos os dias eram iguais.
O povo acordava com o mesmo alarme, pegava as mesmas filas, comia os mesmos pratos sem tempero e dormia na mesma hora, embalado por programas repetidos que só mudavam a data no canto da tela.
Ninguém falava muito alto.
Ninguém sonhava em voz alta.
Ninguém ousava desviar do trilho.
Até que uma criança perguntou:
“Se o sol existe, por que nunca o vemos?”
E foi castigada.
Porque em Rotínia, questionar era crime.
O detalhe mais sombrio?
Não havia grades. Não havia correntes.
As pessoas ficavam porque acreditavam que era “assim mesmo”.
Agora, corta para nós, século XXI, Wi-Fi no bolso, boletos na mesa.
Quantos de nós estamos vivendo em Rotínia sem perceber?
Você acorda, toma banho, trabalha, paga a fatura do roxinho, posta uma selfie com legenda motivacional roubada e vai dormir exausto.
Acredita que está “fazendo o melhor que pode”, mas no fundo está só sobrevivendo com sinal 5G.
Te ensinaram que vida é isso:
“Trabalho é sofrimento.”
“Dinheiro não traz felicidade.”
“Não dá pra ter tudo.”
“Aceita que dói menos.”
Essas frases não são verdades, são coleiras.
Coleiras disfarçadas de sabedoria popular, criadas pra domesticar sua mente enquanto você assiste da arquibancada quem teve coragem de entrar em campo.
A escola ensinou obediência, não pensamento.
O trabalho ensinou submissão, não propósito.
A religião ensinou culpa, não consciência.
E o streaming ensina fuga, não enfrentamento.
O mundo grita: “ACEITA.”
Mas dentro de você ainda sussurra uma voz: “Crie.”
E é aí que começa o incômodo.
O sobrevivente odeia o criador.
Porque quem decide viver de verdade vira ameaça.
Ele não pede licença. Ele inventa. Ele erra. Ele quebra expectativas.
E isso dá medo nos domesticados, porque lembra a eles tudo o que poderiam ter sido.
“Mas e se der errado?”
Vai dar. Muitas vezes.
E ainda bem.
Pois cada erro é um corte na pele falsa que vestiram em você.
Cada tropeço é um atalho para a versão que é só sua.
Sobreviver é moleza, basta não morrer.
Mas viver exige coragem, de desapontar, de se frustrar, de trocar o roteiro definido pelo risco de escrever o seu próprio.
Então eu te pergunto: você está vivendo ou só sobrevivendo?
Porque no fim, viver não é colecionar vitórias, é colecionar histórias que façam sentido.
E se isso incomodar ótimo.
A verdade sempre incomoda quem vive de mentira.
Se você precisa de um sinal pra começar, aqui está.
Você não nasceu pra seguir manual de gente frustrada.
Você nasceu pra criar.
Luiz Leal
Escritor e Palestrante
Programador de Mentes